O debate econômico que acompanhará as eleições de 2026 tende a se concentrar na dívida pública e na relação entre dívida e Produto Interno Bruto. O indicador é importante, mas revela apenas uma parte do problema. O desafio fiscal do Brasil em 2027 será mais amplo: envolverá a capacidade do Estado de definir prioridades, preservar políticas sociais, manter serviços essenciais e, ao mesmo tempo, recuperar espaço para investir.
Esse é um tema desconfortável em qualquer campanha eleitoral. Falar em ajuste fiscal costuma ser associado, quase automaticamente, à retirada de direitos ou ao abandono de programas sociais. Do outro lado, defender mais gastos públicos muitas vezes desconsidera seus efeitos sobre a dívida, os juros, a inflação e o crescimento. Essa oposição simplifica uma questão que, na prática, é muito mais complexa.
O país precisará gastar menos, sim. Mas também terá de gastar melhor — e recuperar a liberdade para escolher onde os recursos públicos produzem mais resultados.
A dívida é o termômetro, não a doença inteira
As projeções para as contas públicas mostram por que o assunto não poderá ser adiado. No cenário-base da Instituição Fiscal Independente, a dívida bruta pode alcançar 86,4% do PIB em 2027, acompanhada de resultado nominal negativo equivalente a 9,2% do PIB. No mesmo cenário, a dívida ultrapassaria 100% do PIB em 2032.
Projeções não são destinos inevitáveis. Elas mudam de acordo com o crescimento da economia, a inflação, os juros, a arrecadação e as decisões adotadas pelos governos. Ainda assim, servem como um alerta: sem mudanças, a trajetória fiscal tende a continuar se deteriorando. Segundo a própria IFI, estabilizar a dívida exigiria um superávit primário próximo de 2,1% do PIB ao ano — uma distância considerável em relação à situação atual. ([Instituição Fiscal Independente](https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2026/06/25/ifi-proximo-presidente-da-republica-tera-de-enfrentar-decisoes-fiscais-dificeis))
O problema não está apenas no tamanho da dívida, mas no custo necessário para financiá-la. Quanto maior for a percepção de risco, maior tende a ser a remuneração exigida pelos investidores para comprar títulos públicos. Juros elevados encarecem o crédito, limitam o consumo e o investimento produtivo e ampliam a própria despesa financeira do governo.
Forma-se, assim, um círculo difícil de romper: a desconfiança fiscal mantém os juros altos; os juros altos aumentam o custo da dívida; e o aumento desse custo reduz ainda mais o espaço para políticas públicas e investimentos.
Um orçamento que quase não permite escolhas
A discussão fiscal de 2027 terá de avançar sobre um assunto ainda mais sensível: a rigidez do orçamento brasileiro.
Em 2025, segundo o Tribunal de Contas da União, 91,4% da despesa primária federal correspondeu a gastos obrigatórios. Isso significa que uma parcela muito pequena ficou disponível para decisões anuais do governo, incluindo o funcionamento da administração pública e parte relevante dos investimentos. O TCU alertou para o risco de compressão estrutural dessas despesas discricionárias, provocado pelo avanço dos gastos obrigatórios, dos mínimos constitucionais e das emendas parlamentares. ([Tribunal de Contas da União](https://sites.tcu.gov.br/contas-do-presidente/ficha-02.html))
Nem toda despesa obrigatória é inadequada. Previdência, benefícios assistenciais, saúde, educação e remuneração de servidores envolvem compromissos legítimos do Estado. Vinculações também surgiram, em muitos casos, para proteger áreas essenciais de mudanças políticas de curto prazo.
O problema aparece quando a soma de vinculações, pisos, indexações e obrigações legais cresce mais rapidamente do que a capacidade financeira do país. Nessa situação, o orçamento deixa de funcionar como instrumento de planejamento e passa a reproduzir decisões tomadas no passado, mesmo quando as necessidades da população mudam.
Por isso, a discussão sobre a desvinculação do orçamento — ou, de forma mais precisa, sobre a revisão de vinculações e mecanismos automáticos de crescimento das despesas — terá de entrar na pauta nacional.
Desvincular, por si só, não reduz gastos. Também não garante eficiência. Mas pode devolver ao Executivo e ao Legislativo parte da capacidade de comparar prioridades, avaliar resultados e direcionar recursos para onde sejam mais necessários. Essa mudança exigirá regras transparentes, metas objetivas e instrumentos de controle que impeçam a simples troca de rigidez por improvisação.
Ajustar sem abandonar quem precisa do Estado
Defender um ajuste fiscal responsável não significa defender o desmonte da proteção social. Programas destinados às famílias mais vulneráveis cumprem uma função econômica e humana essencial, sobretudo em um país marcado por desigualdades profundas.
A questão central não deveria ser escolher entre responsabilidade fiscal e responsabilidade social. Um Estado financeiramente fragilizado também perde a capacidade de proteger os mais pobres. Quando faltam recursos, os primeiros serviços afetados costumam ser justamente aqueles dos quais a população de menor renda mais depende.
O caminho passa por avaliar programas, reduzir sobreposições, combater fraudes, melhorar cadastros, medir resultados e concentrar os recursos onde eles realmente mudam a vida das pessoas. Benefícios sociais eficientes devem ser preservados. Despesas ineficientes, privilégios e políticas que não entregam resultados precisam ser revistos, independentemente do grupo político que os tenha criado.
O mesmo critério deve alcançar benefícios tributários, subsídios, estruturas administrativas, fundos públicos, empresas estatais e outras formas de utilização dos recursos da sociedade. O ajuste não será crível se recair apenas sobre os investimentos ou sobre os serviços que chegam diretamente à população.
Segurança, educação, saúde e infraestrutura não são despesas secundárias
Equilibrar as contas reduzindo continuamente os investimentos públicos seria uma solução apenas aparente. Um país pode melhorar o resultado de curto prazo e, ao mesmo tempo, comprometer sua capacidade de crescer.
Infraestrutura, educação, saúde e segurança pública precisam ocupar o centro dessa discussão. A segurança, em especial, tornou-se uma questão crítica para a vida cotidiana, para o funcionamento das empresas e para a atratividade de diversas regiões do país. O avanço da criminalidade impõe custos às famílias, afasta investimentos, encarece seguros e logística e limita oportunidades de emprego.
Na educação, o desafio não se resume ao volume gasto. É necessário melhorar a aprendizagem, a formação profissional e a conexão entre escolas, universidades e as necessidades de uma economia cada vez mais tecnológica. Na saúde, será indispensável buscar eficiência, prevenção, integração de dados e melhor gestão. Na infraestrutura, o Brasil precisará ampliar parcerias com o setor privado e dar segurança regulatória aos projetos de longo prazo.
São investimentos que ajudam a reduzir a dependência permanente do Estado porque ampliam a produtividade, favorecem a criação de empresas e permitem que mais pessoas encontrem trabalho e renda.
Melhorar o ambiente de negócios também faz parte do ajuste
O equilíbrio fiscal não será alcançado apenas pelo lado das despesas. O crescimento econômico sustentável também tem papel decisivo, porque aumenta a arrecadação sem exigir sucessivos aumentos de impostos.
Para crescer, o Brasil precisa tornar mais simples a atividade de quem produz, investe e emprega. Segurança jurídica, estabilidade das regras, menos burocracia, crédito acessível, infraestrutura adequada e um sistema tributário mais racional são componentes de uma política fiscal sustentável.
A reforma tributária sobre o consumo representa um passo importante, mas sua implantação exigirá cuidado para reduzir incertezas e evitar custos desnecessários durante a transição. O Fundo Monetário Internacional considera que a continuidade dessa reforma pode contribuir para elevar o crescimento potencial brasileiro. Ao mesmo tempo, recomenda um esforço fiscal mais ambicioso para colocar a dívida em trajetória de queda e abrir espaço para investimentos prioritários. ([Fundo Monetário Internacional](https://www.imf.org/en/news/articles/2026/07/23/pr26257-brazil-imf-executive-board-concludes-2026-article-iv-consultation))
Esses objetivos não são contraditórios. Responsabilidade fiscal, investimentos de qualidade e melhoria do ambiente de negócios precisam fazer parte da mesma estratégia.
Um debate que precisa superar as eleições

O artigo “Candidatos evitam discutir temas fiscais cruciais”, publicado pelo Valor Econômico em 4 de agosto de 2026, chama atenção para um ponto pertinente: o próximo presidente terá encontro marcado com a reorganização das contas públicas. O problema não surgiu em um único mandato e tampouco será solucionado por uma única medida.
Diferentes governos contribuíram para a formação do atual quadro, seja pelo crescimento de despesas, pela criação de novas vinculações, pela concessão de benefícios sem avaliação adequada ou pela ausência de reformas estruturais. Da mesma maneira, nenhum governo conseguirá reorganizar sozinho um orçamento que depende de leis e dispositivos constitucionais.
O ajuste exigirá coordenação entre Executivo e Legislativo, além de uma comunicação clara com a sociedade. Será preciso explicar não apenas quanto se pretende economizar, mas o que será preservado, quais despesas serão revistas e como as mudanças contribuirão para melhorar os serviços públicos e recuperar a capacidade de investimento.
Gastar menos será necessário. Gastar melhor será indispensável. E crescer de maneira consistente será a condição para que o esforço fiscal não se transforme apenas em uma sequência de cortes temporários.
A conciliação entre proteção social, infraestrutura, educação, saúde, segurança e melhoria do ambiente de negócios já não cabe apenas nas divisões tradicionais entre esquerda e direita. São questões práticas, que precisam superar bandeiras distintas em favor de uma única: o futuro do país.
O que o cenário fiscal significa para os investimentos
As decisões tomadas a partir de 2027 terão efeitos diretos sobre juros, inflação, câmbio, crédito, atividade econômica e preço dos ativos. Um programa fiscal consistente pode reduzir incertezas e melhorar as condições de financiamento do país. A ausência de medidas críveis pode manter os juros elevados por mais tempo, ampliar a volatilidade cambial e exigir maior cautela na alocação dos investimentos.
Por isso, as sinalizações do próximo Executivo e do novo Legislativo serão determinantes para definir quais estratégias de investimento serão viáveis para cada pessoa e em cada perfil. Mais do que reagir a discursos de campanha, será necessário acompanhar propostas, capacidade política de execução e seus possíveis efeitos sobre diferentes classes de ativos.
Na RGC Invest, podemos ajudar você a entender essa mecânica, avaliar os cenários e tomar as decisões mais adequadas para a sua família, seus objetivos e seu perfil de investidor.
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Este conteúdo tem caráter informativo e não constitui recomendação individual de investimento.
Por Lucal Leal